A análise do fenômeno do fascismo deve levar em conta tanto a etapa inicial do processo, quanto a final. O mesmo é resultante mais de uma rede de relações que de uma essência previamente fixa e estável.
Interpretações conflitantes
Indubitavelmente, a constatação fascista enquanto instrumento do sistema capitalista é equivocada. Outro aspecto que merece ser destacado é a ligação de interesse mútuo da comunidade empresarial ao regime em questão. “O capitalismo e o fascismo tornaram-se aliados práticos (embora não inevitáveis, e nem sempre confortáveis).” É retratada também a ideologia oposta, ou seja, a da comunidade empresarial como vítima do regime. Na verdade o que deve ser objeto de análise é o público fascista e não os líderes, tais como Hitler ou Benito Mussolini.
Outra análise de igual teor errôneo é o desenvolvimento desigual como desencadeador das crises pré-fascistas. Tal concepção é empiricamente enfraquecida pela economia “dual” da França na qual a coexistência do setor camponês com a indústria moderna é patente. Outra abordagem com pouco apoio se refere ao nivelamento urbano e industrial como fator- chave da produção de uma sociedade de massas atomizadas, “na qual os fornecedores de ódios simplistas encontravam audiências prontas.”
Uma corrente de notada influência tem como cerne o caráter ditatorial desenvolvimentista do regime, que tinha como intenção a aceleração do crescimento industrial pela poupança forçada e pelo acúmulo de força de trabalho. Entra em erro, todavia, já que supõe uma perseguição a um tipo de objetivo racional.
Interpretar o regime fascista quanto a sua composição social também se revelou tentador. Experiências recentes colocam em dúvida que o recrutamento fascista se localizasse numa camada social em particular. Estudiosos diversos, vêem no fascismo uma subespécie do chamado totalitarismo. “Em fins do século XX, (...) o modelo totalitário voltou à moda, juntamente com o seu corolário de que nazismo e comunismo representavam um mesmo mal. A interpretação totalitária do fascismo foi tão acaloradamente politizada quanto a do marxismo. Mesmo assim, deve ser debatida em termos de seus próprios méritos.”No nazismo de Hitler e no comunismo de Stálin “a lei estava subordinada aos imperativos mais “altos” da raça ou da classe. Concentrar o foco nas técnicas de controle, contudo, pode fazer com que diferenças importantes sejam obscurecidas.” Stálin diferia de Hitler em relação aos aspecto de dinâmica social e de objetivos (para um, a superioridade racial; para o outro, a igualdade universal). Hitler perseguia e matava seus inimigos de raça enquanto Stálin matava seus opositores de classe.
Não apenas na Alemanha, como também na Itália, regime fascista e religião eram ingredientes de uma mesma receita; portanto, incluía cooperação mútua de forças em oposição ao regime comunista. Concomitantemente, competiam pelo mesmo território.
Uma estratégia metodológica/intelectual que tem sido utilizada desde a década de 70 traduz a cultura fascista através de um olhar antropológico ou etnográfico; e a mesma mostra exatamente como o regime fascista aparecia aos olhos do público. Achar uma “estética fascista única e imutável” que se aplique em todo e qualquer regime fascista é de reduzida chance. Outro problema típico do estudo dessas culturas fascistas é a dificuldade de estabelecimento de comparações entre as mesmas.
Fronteiras
Entender o fascismo, necessita traçar um limite com outras formas que se assemelhem a ele. A menos rebuscada dessas fronteiras separa o regime da chamada tirania clássica; fácil é confundir o mesmo com as ditaduras militares (“ambos os líderes militarizaram suas sociedades e colocaram as guerras de reconquista como uma meta central”).
O caráter militar se evidencia em todos os regimes militares, mas nem todos estes são dotados de aspectos fascistas. Este mencionado regime ou ditadura militar é mais comumente praticada por não coexistir com democracias decadentes.
Os limites fascismo/ autoritarismo são extremamente tênues. Contudo, o segundo não compartilha do ideário de redução a escala zero do âmbito privado. O partido único não consiste no agente principal de controle e coerção social nos regimes de autoritarismo. Os fascistas estão sempre na busca do engajamento e excitação do seu público; os autoritários são adeptos da passividade e da desmobilização por parte de seus seguidores e além disso, hesitam na intervenção da economia.
O que é o fascismo?
“O fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vitima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais o partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, (...) com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza.”
domingo, 6 de abril de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)