O filme em questão, de Peter Cohen, trata do fenômeno do nazismo sob a ótica da arte; é importante destacar que o mesmo tinha como princípio básico o embelezamento do mundo ainda que isso implicasse em uma atitude destruidora. Traçando a trajetória de Hitler e de alguns de seus colaboradores justamente com a arte, podemos notar que o líder nazista teve o sonho de tornar-se artista (“Como eu gostaria de trabalhar com arte”, afirma Adolf Hitler). Logo na noite em que ascendeu ao poder falou sobre Arquitetura; chegou a efetivar diversas gravuras que vieram a ser usadas como modelo em obras arquitetônicas, portanto, vemos que esse seu sonho arquitetônico era de extremas proporções. A importância da arte no mecanismo da propaganda teve papel fundamental no desenvolvimento do nazismo em toda a Alemanha; a arte da modernidade foi tida como “degenerada”, ou seja, passou-se a fazer uma associação entre esta e o bolchevismo e os judeus. “Para os nazistas, as obras modernas distorciam o valor humano e na verdade representavam as deformações genéticas existentes na sociedade; em oposição defende o ideal de beleza como sinônimo de saúde e consequentemente com a eliminação de todas as doenças que pudessem deformar o "corpo" do povo.”
A limpeza é a palavra-chave que realiza a conexão com esse ideal de embelezamento do qual Hitler trata: “O maior principio da saúde, é a beleza.” Mais uma vez, vale ser transcrito uma passagem de um crítico a respeito do documentário: “ (...) Os nazistas consideram que ao garantir ao trabalhador a saúde e a limpeza, libertam-no de sua condição proletária e, garantem-lhe dignidade de burguês, eliminando portanto a luta de classes.A Guerra é vista como uma arte. Com cenas de época, oficiais, mostra-nos a visita de Hitler à Paris logo após a ocupação: O Fuher chega de avião durante a madrugada, visita a Ópera, o Arco do Triunfo, alguns prédios imponentes. Volta para a Alemanha no mesmo dia.O domínio sobre a França, Bélgica, Holanda possibilitaram aos nazistas a pilhagem de obras de arte. Em 1941 a conquista da Grécia; nova viagem de Hitler, que tinha na beleza da antigüidade um de seus modelos.”
Diante do que já foi exposto, finalmente devemos assinalar que o ideal de purificação procurado de maneira bastante exacerbada por Adolf Hitler implicou em uma intesa perseguição e eliminação do povo judeu; seria até mesmo desnecessário falar que esta perseguição não se deu somente no âmbito racial, mas também no cultural.
sábado, 24 de maio de 2008
sexta-feira, 16 de maio de 2008
PAXTON. Op. Cit.,Capítulo 7: p. 283-334
Outras épocas, outros lugares
Este trabalho tem como ponto inicial as seguintes indagações: “O fascismo teria acabado?” / “Haveria a possibilidade de um Quarto Reich ou algo equivalente estar sendo gestado?” / “(...), existiriam condições nas quais algum tipo de neofascismo poderia vir a se tornar um agente poderoso o suficiente para exercer influência sobre as políticas de um sistema de governo?”
É indispensável apontar a repugnância inspirada pelo regime fascista clássico como o maior entrave ao seu ressurgimento no pós-1945. Outros aspectos (tais como a globalização e a redução da credibilidade da ameaça revolucionária), concomitantemente, desempenham esse papel-chave. Na década de 1990, diversos acontecimentos foram causa de dúvida do término do regime.
A difícil e complexa definição do que é fascismo é salutar para se acreditar ou não na recorrência do mesmo. Aqueles que afirmam que ele está voltando têm a tendência de evidenciá-lo como um racismo e um nacionalismo violentos. Contudo, a visão objetada mais freqüente é o desmantelamento das condições antes existentes (aquelas contemporâneas da Europa do entre - guerras), o que não significa a não mais existência do próprio regime.
Paxton fala na dissipação natural dos tabus de 1945 com o desaparecimento da geração que presenciou os acontecimentos de maneira direta. Mas assinala que um fascismo do futuro não teria, necessariamente, que ter completa similitude ao clássico. Novos fascismos dariam preferência aos trajes típicos e patrióticos de seus países de origem; não à suástica. Não existe um critério indumentário para se estabelecer o que é ser fascista ou não. As chamadas “cópias idênticas” ou “cópias fiéis” do fascismo clássico parecem em certa medida, utópicas. A inexistência da mesma conjuntura (como já foi mencionado) e somado a isso, o caráter exótico e/ou chocante torna difícil a conquista de seguidores.
A Europa Ocidental é a região onde o legado fascista é mais forte. Mesmo com a perversidade do regime fascista, alguns de seus seguidores mantiveram-se fiéis. O fenômeno do neofascismo não é obra apenas da Alemanha ou da Itália; as exaustas potências do Segundo Conflito Mundial (tais como França e Inglaterra) sofreram brutas humilhações e perderam, indubitavelmente, o título de Grandes Potências que lhe eram próprios. Nos anos seguintes da ocorrência da Guerra, a direita radical obteve pouco sucesso no jogo eleitoral mas conseguiu levar a público a questão racial assim como a obtenção de influência sobre a política nacional.
Nos anos de 1980 e 1990, indo a uma tendência contrária da esperada, se observa um novo ímpeto a essa direita radical. Destaque especial às crises do petróleo (1973 e 1979) que geram uma instabilidade econômica fora dos padrões normais e a questão social onde se passava a exigir uma mão-de-obra cada vez mais altamente capacitada. A imigração passou a ser vista de maneira negativa, pois representava uma concorrência. “O colapso da solidariedade e da segurança para grande parte da classe trabalhadora européia, que teve início na década de 1970, foi agravado pela chegada à Europa Ocidental de levas de imigrantes do Terceiro Mundo, ao longo do pós-guerra. Em tempos de fartura, os imigrantes eram bem-vindos, porque vinham assumir o trabalho sujo recusado pela força de trabalho nacional. Mas quando, pela primeira vez desde a Grande Depressão, os europeus passaram a enfrentar o desemprego estrutural, os imigrantes deixaram ter boa acolhida.” (p.295)
Diante da passagem acima exposta, fica claro que os ressentimentos à força imigratória serviram de base ao programa dos movimentos radicais da Europa Ocidental a partir da década de 1970. O fenômeno do skinhead é exemplo típico de força de jovens agressivos de ataque a gays, africanos, imigrantes entre outros grupos.
Por fim o autor usa de um método comparativo entre as ditaduras latino-americanas e os regimes nazi/fascistas onde não nega semelhanças, mas chama a atenção para divergências no âmbito estrutural e de função e relação com a sociedade.
Retornamos as perguntas iniciais. O que fica explicado? Justamente que “não temos que procurar por réplicas exatas” desses regimes. Formas hoje existente, logicamente de maneira distinta, podem não ser menos perigosas.
Este trabalho tem como ponto inicial as seguintes indagações: “O fascismo teria acabado?” / “Haveria a possibilidade de um Quarto Reich ou algo equivalente estar sendo gestado?” / “(...), existiriam condições nas quais algum tipo de neofascismo poderia vir a se tornar um agente poderoso o suficiente para exercer influência sobre as políticas de um sistema de governo?”
É indispensável apontar a repugnância inspirada pelo regime fascista clássico como o maior entrave ao seu ressurgimento no pós-1945. Outros aspectos (tais como a globalização e a redução da credibilidade da ameaça revolucionária), concomitantemente, desempenham esse papel-chave. Na década de 1990, diversos acontecimentos foram causa de dúvida do término do regime.
A difícil e complexa definição do que é fascismo é salutar para se acreditar ou não na recorrência do mesmo. Aqueles que afirmam que ele está voltando têm a tendência de evidenciá-lo como um racismo e um nacionalismo violentos. Contudo, a visão objetada mais freqüente é o desmantelamento das condições antes existentes (aquelas contemporâneas da Europa do entre - guerras), o que não significa a não mais existência do próprio regime.
Paxton fala na dissipação natural dos tabus de 1945 com o desaparecimento da geração que presenciou os acontecimentos de maneira direta. Mas assinala que um fascismo do futuro não teria, necessariamente, que ter completa similitude ao clássico. Novos fascismos dariam preferência aos trajes típicos e patrióticos de seus países de origem; não à suástica. Não existe um critério indumentário para se estabelecer o que é ser fascista ou não. As chamadas “cópias idênticas” ou “cópias fiéis” do fascismo clássico parecem em certa medida, utópicas. A inexistência da mesma conjuntura (como já foi mencionado) e somado a isso, o caráter exótico e/ou chocante torna difícil a conquista de seguidores.
A Europa Ocidental é a região onde o legado fascista é mais forte. Mesmo com a perversidade do regime fascista, alguns de seus seguidores mantiveram-se fiéis. O fenômeno do neofascismo não é obra apenas da Alemanha ou da Itália; as exaustas potências do Segundo Conflito Mundial (tais como França e Inglaterra) sofreram brutas humilhações e perderam, indubitavelmente, o título de Grandes Potências que lhe eram próprios. Nos anos seguintes da ocorrência da Guerra, a direita radical obteve pouco sucesso no jogo eleitoral mas conseguiu levar a público a questão racial assim como a obtenção de influência sobre a política nacional.
Nos anos de 1980 e 1990, indo a uma tendência contrária da esperada, se observa um novo ímpeto a essa direita radical. Destaque especial às crises do petróleo (1973 e 1979) que geram uma instabilidade econômica fora dos padrões normais e a questão social onde se passava a exigir uma mão-de-obra cada vez mais altamente capacitada. A imigração passou a ser vista de maneira negativa, pois representava uma concorrência. “O colapso da solidariedade e da segurança para grande parte da classe trabalhadora européia, que teve início na década de 1970, foi agravado pela chegada à Europa Ocidental de levas de imigrantes do Terceiro Mundo, ao longo do pós-guerra. Em tempos de fartura, os imigrantes eram bem-vindos, porque vinham assumir o trabalho sujo recusado pela força de trabalho nacional. Mas quando, pela primeira vez desde a Grande Depressão, os europeus passaram a enfrentar o desemprego estrutural, os imigrantes deixaram ter boa acolhida.” (p.295)
Diante da passagem acima exposta, fica claro que os ressentimentos à força imigratória serviram de base ao programa dos movimentos radicais da Europa Ocidental a partir da década de 1970. O fenômeno do skinhead é exemplo típico de força de jovens agressivos de ataque a gays, africanos, imigrantes entre outros grupos.
Por fim o autor usa de um método comparativo entre as ditaduras latino-americanas e os regimes nazi/fascistas onde não nega semelhanças, mas chama a atenção para divergências no âmbito estrutural e de função e relação com a sociedade.
Retornamos as perguntas iniciais. O que fica explicado? Justamente que “não temos que procurar por réplicas exatas” desses regimes. Formas hoje existente, logicamente de maneira distinta, podem não ser menos perigosas.
domingo, 11 de maio de 2008
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro, Jorge Zahar,1998. Capítulo “Singularidade e normalidade do holocausto” p.106 a 141
“Não é o Holocausto que achamos difícil de entender em toda sua monstruosidade. É a nossa Civilização Ocidental que o Holocausto tornou quase incompreensível (...).”
O fenômeno conhecido como Holocausto é datado de quase meio século; isto representa em certa medida e para alguns, uma posição ou atitude de esquecimento perante seus resultados. Contudo, deve-se igualmente assinalar que os “aspectos de nossa civilização outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda fazem bem parte de nossa vida.” O que significa, segundo Zygmunt Bauman,a existência potencial do mesmo, ou seja, certo grau de similitude entre o que já aconteceu e o que pode vir a se efetivar.
O fenômeno tratado neste texto não deve ser visto simplesmente com assunto acadêmico; tudo o que representou e ainda hoje representa negam uma atitude de simples contemplação e de análise histórica.
O que representou esse extermínio em massa? Indagação complexa de ser compreendida e corretamente explicada. Mas podemos dizer que esse extermínio foi justamente a conseqüência de forma e posições antagônicas e opressivas.
A morte em massa não é fato de invenção moderna. O ódio que serve de base e movimentação pra esse extermínio em massa, passa por um âmbito que já existiu e existe ainda de maneira forte. O genocídio vem acompanhando a história da humanidade.
O que chama nossa atenção são, obviamente, os aspectos que nunca antes haviam estabelecido relação com as chamadas “mortes em massa”. Tudo isto nos sugere a ver o Holocausto tanto como um produto como um fracasso da civilização moderna.
A raiva e fúria são vistas pelo autor como bases efêmeras, grande projetos não podem se erguer sobre as mesmas; elas normalmente se exaurem antes da conclusão da tarefa (seja uma guerra, seja um genocídio).
O que mais nos leva à reflexão é a escala em que se efetivaram os genocídios modernos. Nos inúmeros exemplos de genocídios nunca se constatou um número tão exacerbado de gente assinada em curto espaço de tempo quanto na vigência de Hitler e Stálin. A ausência do caráter espontâneo e um projeto racionalmente calculado são as duas forças marcantes do assassínio em massa da contemporaneidade. O genocídio moderno é algo com um propósito, “é um elemento de engenharia social, que visa a produzir uma ordem social conforme um projeto de sociedade perfeita.” A sociedade é vista como objeto de planejamento, como projeto consciente que deve criar um mundo ideal conforme os padrões de beleza superior.
A cultura da modernidade apresenta semelhanças a um canteiro de jardim na medida em que se define como um projeto de vida ideal e um arranjo perfeito das condições humanas. O genocídio moderno (e de uma maneira geral a própria cultura moderna) é um trabalho de jardineiro.
A perseguição e morte dos indivíduos aqui tratados não foram realizadas em prol da conquista e colonização do território que ocupavam; isso se deu de uma maneira brutal e mecânica, sem qualquer estimulo a emoções humanas (nem sequer o ódio). Voltamos à questão central: por que a morte? Porque não se enquadravam a um ideal de sociedade perfeita. Isso se relaciona a um trabalho de criação, não como muitas vezes é visto, de destruição. A sociedade Comunista e a Sociedade Ariana são as representações máximas desse estado de perfeição, de sociedade racionalmente pura.
O uso da violência é menos dispendioso quando existe a utilização de métodos racionais e planejados; e o regime nazista, indubitavelmente, é uma exemplificação clara de tal afirmativa.
Finalmente o autor nos leva a pensar no papel da burocracia e de todo o aparelho tecnológico-científico nessa atmosfera de misto entre medo e possibilidade de repetição de tal acontecimento.
Diante do que foi exposto valem ser assinaladas três passagens de suma importância:
“O Holocausto é um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente planejado e controlado, (...)” (p.117)
“O Holocausto moderno é único num duplo sentido. É único entre outros casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face à rotina da sociedade moderna porque traz à luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos à parte.” (p.118)
“A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções.” (p.130)
O fenômeno conhecido como Holocausto é datado de quase meio século; isto representa em certa medida e para alguns, uma posição ou atitude de esquecimento perante seus resultados. Contudo, deve-se igualmente assinalar que os “aspectos de nossa civilização outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda fazem bem parte de nossa vida.” O que significa, segundo Zygmunt Bauman,a existência potencial do mesmo, ou seja, certo grau de similitude entre o que já aconteceu e o que pode vir a se efetivar.
O fenômeno tratado neste texto não deve ser visto simplesmente com assunto acadêmico; tudo o que representou e ainda hoje representa negam uma atitude de simples contemplação e de análise histórica.
O que representou esse extermínio em massa? Indagação complexa de ser compreendida e corretamente explicada. Mas podemos dizer que esse extermínio foi justamente a conseqüência de forma e posições antagônicas e opressivas.
A morte em massa não é fato de invenção moderna. O ódio que serve de base e movimentação pra esse extermínio em massa, passa por um âmbito que já existiu e existe ainda de maneira forte. O genocídio vem acompanhando a história da humanidade.
O que chama nossa atenção são, obviamente, os aspectos que nunca antes haviam estabelecido relação com as chamadas “mortes em massa”. Tudo isto nos sugere a ver o Holocausto tanto como um produto como um fracasso da civilização moderna.
A raiva e fúria são vistas pelo autor como bases efêmeras, grande projetos não podem se erguer sobre as mesmas; elas normalmente se exaurem antes da conclusão da tarefa (seja uma guerra, seja um genocídio).
O que mais nos leva à reflexão é a escala em que se efetivaram os genocídios modernos. Nos inúmeros exemplos de genocídios nunca se constatou um número tão exacerbado de gente assinada em curto espaço de tempo quanto na vigência de Hitler e Stálin. A ausência do caráter espontâneo e um projeto racionalmente calculado são as duas forças marcantes do assassínio em massa da contemporaneidade. O genocídio moderno é algo com um propósito, “é um elemento de engenharia social, que visa a produzir uma ordem social conforme um projeto de sociedade perfeita.” A sociedade é vista como objeto de planejamento, como projeto consciente que deve criar um mundo ideal conforme os padrões de beleza superior.
A cultura da modernidade apresenta semelhanças a um canteiro de jardim na medida em que se define como um projeto de vida ideal e um arranjo perfeito das condições humanas. O genocídio moderno (e de uma maneira geral a própria cultura moderna) é um trabalho de jardineiro.
A perseguição e morte dos indivíduos aqui tratados não foram realizadas em prol da conquista e colonização do território que ocupavam; isso se deu de uma maneira brutal e mecânica, sem qualquer estimulo a emoções humanas (nem sequer o ódio). Voltamos à questão central: por que a morte? Porque não se enquadravam a um ideal de sociedade perfeita. Isso se relaciona a um trabalho de criação, não como muitas vezes é visto, de destruição. A sociedade Comunista e a Sociedade Ariana são as representações máximas desse estado de perfeição, de sociedade racionalmente pura.
O uso da violência é menos dispendioso quando existe a utilização de métodos racionais e planejados; e o regime nazista, indubitavelmente, é uma exemplificação clara de tal afirmativa.
Finalmente o autor nos leva a pensar no papel da burocracia e de todo o aparelho tecnológico-científico nessa atmosfera de misto entre medo e possibilidade de repetição de tal acontecimento.
Diante do que foi exposto valem ser assinaladas três passagens de suma importância:
“O Holocausto é um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente planejado e controlado, (...)” (p.117)
“O Holocausto moderno é único num duplo sentido. É único entre outros casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face à rotina da sociedade moderna porque traz à luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos à parte.” (p.118)
“A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções.” (p.130)
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Era dos Extremos – Capítulo 5: Contra o inimigo comum
A subida de Hitler ao poder em 1933 e sua decadência em 1945 foram fator de “causa comum” aos EUA e a URSS; indubitavelmente tal fato era ainda mais alarmante do que o medo mútuo entre as 2 grandes superpotências.
A razão pela qual isso foi estabelecido vai além do alcance das relações internacionais convencionais ou de uma mera política de influência. A junção de potências contra o poderio alemão de Hitler se justifica na medida em que o mesmo é visto como um Estado de políticas comandadas por uma ideologia. Ou seja, de que era uma potência fascista. O real interesse de cada país é que, em última análise, determinava a oposição ou o acordo.
Londres, assim como Paris, puseram em prática aquilo que conhecemos sob o nome de Política de Apaziguamento; já Moscou, inicialmente de oposição tornou-se neutra, com inúmeros ganhos territoriais. Nas palavras de Hobsbawm “(...) a lógica da guerra de Hitler acabou levando todos eles para ela, inclusive os EUA.”
A política elaborada pelo Ocidente pode ser compreendida como uma guerra ideológica de caráter internacional, não simplesmente como uma disputa entre Estados. As linhas de divisão em tal guerra seriam justamente (segundo Hobsbawm) os descendentes do Iluminismo do século XVIII e das grandes revoluções e no lado oposto, seus adversários.
Um dado importante apontado pelo autor refere-se ao governo de pelo menos dez velhos paises europeus quando findo o Segundo Conflito Mundial em 1945: eram chefiados por homens que inicialmente tinham sido rebeldes, exilados políticos ou haviam visto no seu próprio governo uma imoralidade e ilegitimidade. Vários escolhiam pela lealdade ao comunismo soviético, que suplantava a lealdade aos seus respectivos Estados.
Pouco a pouco, as vitimas do “Eixo” foram vendo as ampliações das conquistas do mesmo em direção à guerra que já em 1931, parecia ser não mais evitada. Era comum a frase: “fascismo significa guerra”. Em 1933 tem-se a subida de Hitler ao poder, este já evidenciando o seu programa e suas metas. Em 1935, a Alemanha rompia com os tratados de paz e surgia novamente como grande força militar e naval. É nesse mesmo ano que Benito Mussolini invade a Etiópia, região que passa a ser ocupada pela Itália como colônia nos anos 1936/1937. Em 1936 a Alemanha recupera a Renânia e, com a ajuda presente tanto da Itália quanto da Alemanha, explode na Espanha um grande conflito: a Guerra Civil Espanhola. As duas potencias fascistas de alinham formalmente; concomitantemente Alemanha e Japão assinam um “Pacto Anti-Comintern”. Seguindo a ordem cronológica, tem-se em 1937 a invasão da China pelo Japão o que abre caminho para uma guerra aberta; em 1938 é a vez de a Áustria ser invadida e anexada, fato que se deu sem resistência. O acordo de Munique despedaça a Tchecoslováquia, transferindo parte dela para as mãos do cada vez mais ascendente, Hitler. Como notado, mais uma vez isso se dá pacificamente.
A organização e mobilização de todas as potências de apoio contra o fascismo, “foi um triplo apelo pela união de todas as forças políticas que tinham um interesse comum em resistir ao avanço do Eixo; por uma política real de resistência; e por governos dispostos a executar essa política.”
Essa união se fazia necessária; era imperiosa para não resultar na destruição individual de cada umas das forças de oposição ao regime fascista. Foram os comunistas os protagonistas ou a encarnação da defesa da unidade antifascista.
A camada intelectual do Ocidente realizou o papel de primeira camada social mobilizada em massa contra o fascismo na década de 1930. Era ainda pequena, mas dotada de grande influência.
O que nos é passado desde então, é que existia uma ampla e inegável diferença entre reconhecer o perigo desenvolvido pelas potências formadoras do Eixo e realizar algum tipo de política de contraposição. É importante lembrar igualmente, das conseqüências drásticas do Primeiro Conflito Mundial para as potências alemã, francesa e britânica. Conseqüências estas não apenas no âmbito material, como na própria esfera humana.
Acordo ou negociação eram impossíveis com a Alemanha de Hitler porque seus objetivos eram tidos como dotados de irracionalidade e sem limite algum. “Expansão e agressão faziam parte do sistema, a menos que se aceitasse de antemão a dominação alemã (...).” A guerra, como já mencionado, parecia inevitável. O papel da ideologia fascista era de determinar os objetivos da Alemanha nazista e excluiu a realpolitik como alternativa para os adversários.
A guerra necessitava de uma preparação mas, segundo Hobsbawm, isso não foi feito. “(...) a Grã-Bretanha, certamente não estava disposta a aceitar uma Europa dominada por Hitler antes que a guerra acontecesse (...).”
O conflito espanhol antecipou e serviu pra moldar as forças que iriam destruir a força fascista. Todavia, o que é apontado também é que em 1936 (e mais ainda em 1939) as implicações do mesmo refletiam como fruto de um fato não real. Finalmente, o que devemos assinalar é o papel do regime comunista no chamado movimento de resistência. O comunismo atingiu total influência em 1945/1947 justamente por esse motivo (com exceção à Alemanha de Hitler).
A movimentação em torno da questão antifascista foi marcada por uma grande transitoriedade, assim como uma notável heterogeneidade. Todavia, conseguiu reunir uma extraordinária gama de forças; fato este que deve ser reconhecido.
A razão pela qual isso foi estabelecido vai além do alcance das relações internacionais convencionais ou de uma mera política de influência. A junção de potências contra o poderio alemão de Hitler se justifica na medida em que o mesmo é visto como um Estado de políticas comandadas por uma ideologia. Ou seja, de que era uma potência fascista. O real interesse de cada país é que, em última análise, determinava a oposição ou o acordo.
Londres, assim como Paris, puseram em prática aquilo que conhecemos sob o nome de Política de Apaziguamento; já Moscou, inicialmente de oposição tornou-se neutra, com inúmeros ganhos territoriais. Nas palavras de Hobsbawm “(...) a lógica da guerra de Hitler acabou levando todos eles para ela, inclusive os EUA.”
A política elaborada pelo Ocidente pode ser compreendida como uma guerra ideológica de caráter internacional, não simplesmente como uma disputa entre Estados. As linhas de divisão em tal guerra seriam justamente (segundo Hobsbawm) os descendentes do Iluminismo do século XVIII e das grandes revoluções e no lado oposto, seus adversários.
Um dado importante apontado pelo autor refere-se ao governo de pelo menos dez velhos paises europeus quando findo o Segundo Conflito Mundial em 1945: eram chefiados por homens que inicialmente tinham sido rebeldes, exilados políticos ou haviam visto no seu próprio governo uma imoralidade e ilegitimidade. Vários escolhiam pela lealdade ao comunismo soviético, que suplantava a lealdade aos seus respectivos Estados.
Pouco a pouco, as vitimas do “Eixo” foram vendo as ampliações das conquistas do mesmo em direção à guerra que já em 1931, parecia ser não mais evitada. Era comum a frase: “fascismo significa guerra”. Em 1933 tem-se a subida de Hitler ao poder, este já evidenciando o seu programa e suas metas. Em 1935, a Alemanha rompia com os tratados de paz e surgia novamente como grande força militar e naval. É nesse mesmo ano que Benito Mussolini invade a Etiópia, região que passa a ser ocupada pela Itália como colônia nos anos 1936/1937. Em 1936 a Alemanha recupera a Renânia e, com a ajuda presente tanto da Itália quanto da Alemanha, explode na Espanha um grande conflito: a Guerra Civil Espanhola. As duas potencias fascistas de alinham formalmente; concomitantemente Alemanha e Japão assinam um “Pacto Anti-Comintern”. Seguindo a ordem cronológica, tem-se em 1937 a invasão da China pelo Japão o que abre caminho para uma guerra aberta; em 1938 é a vez de a Áustria ser invadida e anexada, fato que se deu sem resistência. O acordo de Munique despedaça a Tchecoslováquia, transferindo parte dela para as mãos do cada vez mais ascendente, Hitler. Como notado, mais uma vez isso se dá pacificamente.
A organização e mobilização de todas as potências de apoio contra o fascismo, “foi um triplo apelo pela união de todas as forças políticas que tinham um interesse comum em resistir ao avanço do Eixo; por uma política real de resistência; e por governos dispostos a executar essa política.”
Essa união se fazia necessária; era imperiosa para não resultar na destruição individual de cada umas das forças de oposição ao regime fascista. Foram os comunistas os protagonistas ou a encarnação da defesa da unidade antifascista.
A camada intelectual do Ocidente realizou o papel de primeira camada social mobilizada em massa contra o fascismo na década de 1930. Era ainda pequena, mas dotada de grande influência.
O que nos é passado desde então, é que existia uma ampla e inegável diferença entre reconhecer o perigo desenvolvido pelas potências formadoras do Eixo e realizar algum tipo de política de contraposição. É importante lembrar igualmente, das conseqüências drásticas do Primeiro Conflito Mundial para as potências alemã, francesa e britânica. Conseqüências estas não apenas no âmbito material, como na própria esfera humana.
Acordo ou negociação eram impossíveis com a Alemanha de Hitler porque seus objetivos eram tidos como dotados de irracionalidade e sem limite algum. “Expansão e agressão faziam parte do sistema, a menos que se aceitasse de antemão a dominação alemã (...).” A guerra, como já mencionado, parecia inevitável. O papel da ideologia fascista era de determinar os objetivos da Alemanha nazista e excluiu a realpolitik como alternativa para os adversários.
A guerra necessitava de uma preparação mas, segundo Hobsbawm, isso não foi feito. “(...) a Grã-Bretanha, certamente não estava disposta a aceitar uma Europa dominada por Hitler antes que a guerra acontecesse (...).”
O conflito espanhol antecipou e serviu pra moldar as forças que iriam destruir a força fascista. Todavia, o que é apontado também é que em 1936 (e mais ainda em 1939) as implicações do mesmo refletiam como fruto de um fato não real. Finalmente, o que devemos assinalar é o papel do regime comunista no chamado movimento de resistência. O comunismo atingiu total influência em 1945/1947 justamente por esse motivo (com exceção à Alemanha de Hitler).
A movimentação em torno da questão antifascista foi marcada por uma grande transitoriedade, assim como uma notável heterogeneidade. Todavia, conseguiu reunir uma extraordinária gama de forças; fato este que deve ser reconhecido.
Assinar:
Postagens (Atom)