“Não é o Holocausto que achamos difícil de entender em toda sua monstruosidade. É a nossa Civilização Ocidental que o Holocausto tornou quase incompreensível (...).”
O fenômeno conhecido como Holocausto é datado de quase meio século; isto representa em certa medida e para alguns, uma posição ou atitude de esquecimento perante seus resultados. Contudo, deve-se igualmente assinalar que os “aspectos de nossa civilização outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda fazem bem parte de nossa vida.” O que significa, segundo Zygmunt Bauman,a existência potencial do mesmo, ou seja, certo grau de similitude entre o que já aconteceu e o que pode vir a se efetivar.
O fenômeno tratado neste texto não deve ser visto simplesmente com assunto acadêmico; tudo o que representou e ainda hoje representa negam uma atitude de simples contemplação e de análise histórica.
O que representou esse extermínio em massa? Indagação complexa de ser compreendida e corretamente explicada. Mas podemos dizer que esse extermínio foi justamente a conseqüência de forma e posições antagônicas e opressivas.
A morte em massa não é fato de invenção moderna. O ódio que serve de base e movimentação pra esse extermínio em massa, passa por um âmbito que já existiu e existe ainda de maneira forte. O genocídio vem acompanhando a história da humanidade.
O que chama nossa atenção são, obviamente, os aspectos que nunca antes haviam estabelecido relação com as chamadas “mortes em massa”. Tudo isto nos sugere a ver o Holocausto tanto como um produto como um fracasso da civilização moderna.
A raiva e fúria são vistas pelo autor como bases efêmeras, grande projetos não podem se erguer sobre as mesmas; elas normalmente se exaurem antes da conclusão da tarefa (seja uma guerra, seja um genocídio).
O que mais nos leva à reflexão é a escala em que se efetivaram os genocídios modernos. Nos inúmeros exemplos de genocídios nunca se constatou um número tão exacerbado de gente assinada em curto espaço de tempo quanto na vigência de Hitler e Stálin. A ausência do caráter espontâneo e um projeto racionalmente calculado são as duas forças marcantes do assassínio em massa da contemporaneidade. O genocídio moderno é algo com um propósito, “é um elemento de engenharia social, que visa a produzir uma ordem social conforme um projeto de sociedade perfeita.” A sociedade é vista como objeto de planejamento, como projeto consciente que deve criar um mundo ideal conforme os padrões de beleza superior.
A cultura da modernidade apresenta semelhanças a um canteiro de jardim na medida em que se define como um projeto de vida ideal e um arranjo perfeito das condições humanas. O genocídio moderno (e de uma maneira geral a própria cultura moderna) é um trabalho de jardineiro.
A perseguição e morte dos indivíduos aqui tratados não foram realizadas em prol da conquista e colonização do território que ocupavam; isso se deu de uma maneira brutal e mecânica, sem qualquer estimulo a emoções humanas (nem sequer o ódio). Voltamos à questão central: por que a morte? Porque não se enquadravam a um ideal de sociedade perfeita. Isso se relaciona a um trabalho de criação, não como muitas vezes é visto, de destruição. A sociedade Comunista e a Sociedade Ariana são as representações máximas desse estado de perfeição, de sociedade racionalmente pura.
O uso da violência é menos dispendioso quando existe a utilização de métodos racionais e planejados; e o regime nazista, indubitavelmente, é uma exemplificação clara de tal afirmativa.
Finalmente o autor nos leva a pensar no papel da burocracia e de todo o aparelho tecnológico-científico nessa atmosfera de misto entre medo e possibilidade de repetição de tal acontecimento.
Diante do que foi exposto valem ser assinaladas três passagens de suma importância:
“O Holocausto é um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente planejado e controlado, (...)” (p.117)
“O Holocausto moderno é único num duplo sentido. É único entre outros casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face à rotina da sociedade moderna porque traz à luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos à parte.” (p.118)
“A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente enfermidade e afecções.” (p.130)
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